






















Tenho um fascínio por estas máquinas de captar fótons. Fotografar é como escrever com a luz. Assim foi que decidi batizar de ENGARRAFANDO RELÂMPAGOS (*) esta nova série de publicações aqui n’A Casa de Vidro. Serão ensaios fotográficos que servirão tanto para partilhar com vocês um pouco do que mais me chamou a atenção, o que instigou meu foco atencional e meu click durante minhas andanças, quanto para ponderações textuais sobre as imagens e sobre a própria arte da fotografia. Eu nunca esqueci daquela formulação de André Bazin, que cito agora de cabeça, que propõe que a fotografia é uma espécie de embalsamamento do momento, é transformar o instante em múmia.
Bem, acho sim que a sanha fotografante, para mim, tem a ver com salvar da morte, resgatar do devir, isto diante do quê meus olhos se põe sabendo que nem eu estarei aqui para sempre, nem este cenário aqui-e-agora sensível a meus sentidos quedará parado. Uma fotografia é um quadro de algo que foi e passou, um mágico meio de retenção do instante não-durável que nunca mais vai voltar, mas que por graça da foto aqui está, representado por milhões de pixels.
Neste primeiro post, trago algumas imagens do segundo maior parque urbano do Brasil, que visitei no fim de Julho de 2025, e que só perde em extensão pra Tijuca carioca: esta belezura potiguar que é o Parque das Dunas / Bosque dos Namorados em Natal/RN. Gosto muito daqueles grafites que estão no muro de entrada – o Coletivo Aboio tá de parabéns pela riqueza cromática e pela biodiversidade belamente honrada nestes trabalhos. E acho interessante também as mensagens escritas, que juntas constituem quase que um poema ecológico, uma carta pedagógico-ambiental, incluindo: não deixe nada além de pegadas, não mate nada além de tempo, não leve nada além de saudade, não tire nada além de fotos.
Anexo também duas selfies deste quarentão feioso que vos escreve só pra registrar um pouco do rosto, corpo, estado psíquico-afetivo de quem bateu as fotos; trago um semblante meio consternado, meio angustiado, com as marcas tanto da idade (quase virando um combalido modelo 4.1) quanto das pedradas da Vida, esta dona tantas vezes impiedosa, com seu nonsense e brutalismo (a morte do Bruno Duarte tinha ocorrido poucos dias antes e eu ainda processava a ruptura de co-habitação d’A Casa de Vidro); eu tava só pois Gi estava adoentada, com muita tosse, trampando em sua tese mesmo em seu confronto com o vírus da gripe que também havia me pegado – neste dia, eu sentia a volta gradual do vigor que chamamos de convalescença; eu tava vestindo uma camiseta em homenagem ao Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber, pensava no “uma cam na mão e mil ideias turbilhonando na cuca maconheira”, e estava na véspera de um vôo de volta para o Cerrado que me deixava pensativo: não voltarei tão cedo a este belo parque; voltarei algum dia? Melhor tentar engarrafar alguns relâmpagos.
(*) Tenho uma dívida com Gustavo Vázquez, músico e produtor musical, pela expressão, dita em outro contexto, o da captação de uma performance musical irrepetível, de uma jam de estúdio que é aquele “take” impecável. Levei pra vida e transplantei pra este série fotográfico-verborrágica o tal do ENGARRAFAR RELÂMPAGOS.
Publicado em: 09/08/25
De autoria: casadevidro247
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia